ALDEIA DA LUZ, UMA CONSEQUÊNCIA DO ALQUEVA

A povoação mais recente de Portugal, o impacto do Alqueva nas ruas desertas e um museu que conta tudo o que aconteceu

 

PUBLICADO A 6 DE JULHO DE 2020 | VIAGEM A 12 DE JUNHO DE 2020

Quem conhece a história da Aldeia da Luz, sabe que esta mediática povoação foi a que mais sofreu com as consequências da barragem de Alqueva. Com o fecho das comportas da barragem, a aldeia ia correr o risco de ficar abaixo do nível do água e por isso surgiram vários planos a concurso para a construção de uma nova aldeia.

Do que mais me lembro das primeiras visitas a esta aldeia era das ruas vazias, onde não se via, literalmente, ninguém… Decidi voltar cinco anos depois para perceber se algo tinha mudado, se a população estava mais receptiva a esta mudança e para aproveitar um dos pores-do-sol mais apetecíveis desta região.

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Um pouco de história…

Todas as ideias associadas à barragem do Alqueva, começaram a ser idealizadas na segunda metade do século XX. Na Aldeia da Luz começou a gerar-se ainda mais controvérsia quando em 1981 foi criado uma comissão de moradores para decidirem o seu futuro… Haviam três opções: indemnizar os habitantes, transferir as famílias para outros lugares ou construir uma nova aldeia. A estratégia prioritária tinha como objectivo a realização de um inquérito porta-a-porta para se fazer uma levantamento que incluía escutar a vontade da população. No fim, com alguma polémica à mistura, procedeu-se à construção da nova aldeia.

Em 1996, lançou-se um concurso público ganho por uma equipa de arquitectos que rapidamente começou os trabalhos para o plano de pormenor da aldeia. Muitas foram as discussões públicas para se decidir a nova localização e respeitar as vontades do povo. Os moradores da aldeia sabiam muito bem o que queriam e o que não queriam e por isso é que os arquitectos se dispuseram ao diálogo para haver um maior entendimento entre as partes.

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(Nova) Aldeia da Luz

Entre 1998 e 2002 foi construída a nova aldeia onde se tentou conciliar a imagem da aldeia alentejana que continuasse a exprimir os velhos hábitos de antigamente. Não tendo sido possível manter a diferenciação social, as habitações acabaram por transparecer o mesmo método construtivo, contribuindo para a imagem homogénea que se conhece actualmente.

Além das casas, foram construídas outros serviços essenciais como lojas, cafés, uma escola, uma capela, um jardim público, o mercado e uma praça de touros. No fundo, esta aldeia tinha todas as condições para se tornar um dos lugares com as melhores condições de vida do nosso país!

Todo o plano em volta da nova Aldeia da Luz foi tão mediático que vinham autocarros de todo o lado para perceberem o que se estava a passar naquele lado do país! Uma imagem que contrasta com os tempos actuais… Mesmo com todos os esforços alcançados na reconstrução da aldeia, existe uma memória e uma valor patrimonial afectivo difícil de repôr. Nesse sentido, parte da população decidiu refazer a sua vida noutros lugares, abandonando as casas que lhes estavam destinadas. É assim que resultam as ruas desertas e o silêncio que paira no ar…

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Museu da Luz

Para preservar as tradições da antiga aldeia e contar como decorreu todo o processo de transição para uma nova localização, foi criado este museu. Digamos que é a chama viva da região. É um equipamento que ainda traz algum dinamismo a este lugar pelas diversas actividades associadas a matérias como a fotografia, arqueologia ou astronomia.

Juntamente com o museu, foi implantado neste espaço a Igreja de Nossa Senhora da Luz e o cemitério da aldeia. A igreja é mais um espaço que pertence ao museu e está fechado ao público, funcionando apenas como um elemento que dá nome e identidade à aldeia, transportando consigo o significado acumulado pelo tempo.

O cemitério, além de tudo o que representa, é um espelho das gerações que deram vida ao local. Foi o primeiro equipamento transladado e aquele que gerou mais polémica neste processo de mudança, pois mexer na comunidade dos mortos era tocar na memória sagrada da aldeia. Com os mortos num novo espaço, só restava aos habitantes aceitarem com resignação que os vivos mudassem de igual forma…

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Ancoradouro

À volta da aldeia, pouco mais há para fazer… Por outro lado, existe sempre muito caminho para percorrer e novos cantos para explorar. É o caso do ancoradouro da Aldeia da Luz que é antecedido por um passadiço de quase 800 metros de comprimentos. É mais elegante no inverno quando os níveis da água estão mais altos e não nos sentimos a caminhar por cima de terra.

Este ancoradouro, à semelhança do que aconteceu com outras aldeias ribeirinhas, veio repôr as ligações perdidas por terra com outras povoações e na Aldeia da Luz era um bem necessário para não se sentir tão isolada. Com a remoção de alguns caminhos, qualquer viagem entre a Aldeia da Luz para outras vilas/aldeias ficou mais longa e estes equipamentos tentam restituir alguma normalidade que antes existia. Além disso, é mais um espaço interessante para ver o pôr-do-sol (quando ele existe) e ainda nos dá mais uma perspectiva diferente da aldeia, onde se destaca o museu e a igreja.

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“LUZ”

A marcação da palavra “LUZ” pode ser encontrada na estrada que levava à antiga Aldeia da Luz. É mais uma forma de preservar a memória da aldeia e relembrar toda a história relacionada com o processo de mudança.

Esta também era a estrada que muitos visitantes faziam para visitar o Castelo da Lousa, junto às margens do rio Guadiana. A ruína deste castelo romano, era o ex-líbris da região e foi o único monumento que ficou submerso. Como não foi possível mudá-lo de lugar, a solução passou por protegê-lo com sacos de areia com o intuito de preservar o castelo e, quem sabe no futuro, um dia que a barragem esvazie por completo, lá estará para voltar a ser apreciado.

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Curiosamente, junto à descrição “LUZ”, está o Monte dos Pássaros, uma casa tipicamente alentejana que é única construção que restou da antiga Aldeia da Luz. Foi mais um espaço que ficou abandonado e que actualmente pertence ao Museu da Luz. Funciona como um espaço de convívio onde decorrem vários workshops e outras actividades relacionadas com o museu.

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Penínsulas de Alqueva

Uma das coisas que mais gosto nesta região são as penínsulas criadas pela barragem. As paisagens ficaram mais bonitas com um cenário a que não estamos muito habituados no Alentejo e por isso dá mais vontade de percorrer os caminhos de terra batida na esperança de nos surpreender-nos com o que aí vem…

Por exemplo, se continuarmos pela estrada principal da aldeia que começa na Rua de Mourão e continua no Terreiro do Rossio, entramos num caminho que nos leva a um ponto de onde temos uma panorâmica para Monsaraz e Mourão e se nos voltarmos para trás ainda vemos a aldeia. É claro que alguns terrenos são privados mas com jeitinho tudo se consegue fazer…

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Aldeia da Estrela

A Aldeia da Luz combina perfeitamente numa visita à Aldeia da Estrela, quer pela sua proximidade quer pelas características que têm em comum. A Estrela manteve-se enquanto aldeia mas viu o rio aproximar-se das suas casas, o cemitério também foi transladado para outro local e ficou privada de acessos, havendo apenas uma ligação desde a M517, a estrada entre Mourão e a Póvoa de São Miguel. Tornou-se uma península, isolando-se ainda mais pelo facto de entrarmos e sairmos da aldeia pela mesma via. A restauração é escassa e os habitantes são maioritariamente idosos.

Também se pode pensar de outra forma… A sua localização única dá-lhe um encanto especial. Existem planos para explorar o potencial turístico mas tardam em se revelar… A proximidade com a água transformou a aldeia num lugar ideal para a prática de desportos náuticos, fazer piqueniques  ou simplesmente desfrutar da paisagem da albufeira a partir de casa.

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Embora o projecto do Alqueva tenha trazido benefícios ao Alentejo, nem tudo foi assim tão perfeito… Como acontece na Aldeia da Luz, perderam-se costumes antigos e práticas culturais associadas ao rio. Por mais tentativas que tenham sido feitas para agradar as populações, o impacto social foi gritante e as ligações afectivas foram impossíveis de ser respostas.

O mais positivo desta visita, comparativamente com outras que fiz há uns anos, foi que senti algum conformismo por parte dos habitantes da aldeia que encaram a nova vida com uma mente mais aberta. Desta vez também encontrei mais pessoas nas ruas e mesmo que tenham sido pouco mais que uma mão cheia, foi o suficiente para criar um ambiente menos tenso do que em visitas anteriores.

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Autor do projecto Num Postal, arquitecto de profissão, fotógrafo nas horas vagas e apaixonado por viagens. Criei o blog para que não me escape nada das minhas aventuras pelo mundo, para partilhar com os outros e para eu reviver cada uma destas experiências! Depois de viver uma temporada no Brasil, percebi que há todo um universo lá fora para descobrir e desde então nunca mais parei de ir à procura de lugares desconhecidos.

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