GJOVIK, UMA HISTÓRIA DE RESILIÊNCIA

Um acampamento internacional à boa maneira local, um percurso em autonomia pelas paisagens da Noruega e os seis dias em que não tomamos banho

PUBLICADO A 14 DE JANEIRO DE 2025 | VIAGEM DE 21 A 22 DE JULHO DE 2024

Pensei bastante antes de escrever este artigo, não porque Gjovik seja um destino que não merecesse aparecer aqui no blog mas porque o registo em que vim cá foi um pouco diferente daquilo que é habitual aparecer por aqui…

Aterrei na Noruega para participar numa actividade de escuteiros com uma tribo do meu Clã (são mesmo estes termos que usamos neste contexto para definir uma equipa com escuteiros entre os 18 e os 22 anos do CNE – Corpo Nacional de Escutas). Ficamos inseridos num campo com outros escuteiros de vários países da Europa e desde uma fase muito inicial de preparação para estes dias, fomos avisados de como as diferenças culturais poderiam ter um impacto importante na forma de cada grupo olhar para o escutismo.

Já sabíamos que os países do norte da Europa são muito literais no que toca a regras ou que a pontualidade britânica é um exemplo a seguir (a primeira parte é verdade, a segunda nem tanto). Também sabemos que os latinos têm alguma dificuldade em cumprir com estas premissas mas teríamos de nos encaixar de alguma forma.

É por isso que esta acaba por ser uma história de resiliência, de um conjunto de portugueses que com o espírito certo acabou por fazer a diferença e ser parte importante destes dias de participação no Roverway.

Roverway

O Roverway é o maior evento europeu de jovens que reúne escuteiros dos 16 aos 22 anos e que vai na sétima edição. A primeira edição foi em Portugal em 2003 e em 2024 o destino escolhido foi a Noruega.

A actividade é dividida em duas partes distintas. Durante os primeiros dias, os participantes estão alocados em pequenos grupos (os “paths“) para terem oportunidade de vivenciar o escutismo numa parte específica do país. A segunda parte da actividade, concentra-se num ponto específico (que neste caso foi Stavanger) onde todos os paths se reúnem para terem outras experiências.

Ao nosso grupo, mediante algumas recomendações que indicamos para a escolha do path, fomos atribuídos a Gjovik, uma vila 2 horas a Norte de Oslo, onde tudo é verde, há um rio enorme e as pessoas receberam-nos muito bem!

Dia 0 | Chegada a campo

O nosso Clã reuniu-se em Lisboa para apanhar o avião até Oslo. Umas horas depois, chegamos ao destino, dividimo-nos em dois grupos e seguiu cada um para o seu path. No nosso caso, apanhamos comboio desde o aeroporto de Oslo até Moelv e daqui um autocarro para Gjovik. O objectivo era chegarmos a campo, algo que só conseguimos após uma caminhada de 2 horas e uma elevação percorrida de 230 metros.

Pelo meio fomos super bem recebidos tanto pela revisora do comboio, a senhora do supermercado onde compramos o jantar, uma família iraniana que conhecemos durante a viagem de autocarro e ainda nos ofereceram comida! A vista do campo para a cidade também era prometedora e por isso avizinhavam-se dias muitos bons!

Dia 1 | Abertura oficial da actividade

Acordamos com alguma chuva e esteve sempre assim o dia todo. O desconforto de pés molhados ao longo do dia foi constante mas tudo ok. Mesmo sem grandes objectivos para este dia, a ideia passava por ajudar no que fosse necessário para receber outros grupos e com este nosso esforço, fomos recompensados com um bom almoço onde até havia caviar (numa pasta manhosa mas não deixa de ser caviar 😅).

Ficamos o resto do dia a ocuparmo-nos como podemos, seja com jogos de cartas ou a conhecer os primeiros grupos que iam chegando. Íamos começando a habituarmo-nos às primeiras adaptações de horários e o primeiro choque foi o jantar às 17h30. Ainda assim, comemos uma sopa de vegetais com batata cozida e carne que nos soube a “casa”.

Depois disto, tivemos a nossa abertura oficial do campo com aquilo a que chamamos um “fogo de conselho”. Como estivemos num pavilhão, foi tudo meio improvisado onde a única fogueira que tinhamos era uma projeção na parede (por norma estes momentos são sempre em exterior à volta de uma fogueira a sério).

Durante este primeiro dia, fomos deixando a nossa marca, tanto nas montagens como nas dinâmicas de campo e no fogo de conselho. As diferenças começavam a ser notórias pelo pouco espírito de serviço de outros grupos e pela nossa grande capacidade de adaptação. Além disso, estávamos com o espírito certo e quando assim é, tudo fica mais fácil!

Dia 2 | Formações e noite internacional

Neste dia vimos os primeiros raios de sol. Foi o mote perfeito para um dia em que ficamos novamente em campo a receber  formações úteis para as próximas actividades. Aproveitamos algum do tempo livre para fazer um maior reconhecimento do local e desde os campos abertos às vistas para o rio, íamos ficando bastante surpreendidos com beleza deste lugar. O jantar chegou a meio da tarde e apesar da comida não ser nada de mais, ficamos bastante satisfeitos com mais uma refeição quente.

Nesta altura começaram a surgir os primeiros problemas de comunicação. Apesar de parecer que as actividades estavam coordenadas e organizadas, sentíamos falta de uma voz de comando para receber indicações para o dia porque cada informação era transmitida através de WhatsApp e a partir daí é que tínhamos de ter iniciativa para fazermos o que quer que fosse.

Foi com essa perspectiva que iniciamos a “noite” internacional. Pediram-nos para organizar o espaço com as várias bancas dos países e mais uma vez os portugueses assumiram a situação para fazer algo acontecer.

Neste tipo de actividades, cada país apresenta algo típico para dar a provar mas desta vez preferimos usar um quiz que foi muito interactivo e deixou o bichinho nos nossos amigos para visitarem Portugal. No meio de holandeses com os seus waffles, o tradicional chocolate dos suíços e as gomas salgadas dos noruegueses (do mais horrível que já provei na vida), houve muita variedade e animação que tornou este acontecimento memorável!

Dia 3 | O primeiro dia em autonomia

Acordamos para mais um dia em que não aconteceu nada de mais mas ainda assim foi dos melhores que tivemos. A manhã foi ocupada com algumas dinâmicas de grupo que pouco ou nada tinham de dinâmico ou de pedagógico. Seguiu-se uma reunião um pouco tensa com muita insistência em obter respostas que demoravam a chegar para perceber o que íamos comer e onde íamos dormir nos próximos dias.

Um autocarro foi buscar-nos a campo para nos deixar no ponto onde íamos começar a caminhada e lá seguimos. Com muitos “pântanos” pelo caminho, fomos aproveitando o que a paisagem nos oferecia até chegarmos a um sítio muito pacato para jantarmos (ainda não eram 18h mas já estavamos habituados ao ritmo norueguês). Mesmo com os sapatos todos ensopados, a boa disposição do grupo estava sempre acima de qualquer desconforto que pudéssemos sentir.

Aproveitamos para descansar e mais à frente, encontramos umas casinhas em campo aberto, onde ficamos com a devida autorização dos proprietários dos terrenos.

Dia 4 | O segundo dia em autonomia

Estávamos a meio caminho de uma caminhada de 18 km. O dia teve duas partes bem distintas e se até à hora de almoço, o percurso foi tranquilo, a seguir deixou mesmo de haver percurso.

Acordamos num sítio que nos pareceu ainda mais bonito com imenso sol e seguimos até uma lagoa que tínhamos visto no mapa para a tomarmos banho (o primeiro desde que cá chegamos). Ficamos ali a almoçar e a relaxar porque afinal já não faltava assim tanto… Pensávamos nós porque a parte da tarde foi um descalabro.

Continuamos a seguir os caminhos que estavam no mapa mas a certa altura, desapareceram. Ainda conseguimos umas dicas de uns escuteiros noruegueses com quem nos cruzamos mas serviu de pouco… Voltamos a entrar em pântanos ainda piores e para evitar males menores como no dia anterior, decidi tirar os sapatos e correu tudo bem (fiquei com os sapatos secos e como o terreno era fofo, não tive qualquer problema).

Novos caminhos iam aparecendo no mapa sem estarem visíveis no local. Continuamos a fazer corta-mato em terrenos com uma inclinação acentuada mas era preferível seguir pelas estradas à nossa volta, mesmo que andássemos mais alguns quilómetros.

Com todas as dores no corpo, pés ensopados e tudo mais, o grupo aguentou-se bem e estávamos sempre a motivar-nos uns aos outros apesar do cansaço.

Chegamos ao ponto de encontro onde o autocarro nos ia apanhar no dia seguinte e, ali ao lado, vimos um quintal onde pedimos para passar a noite e foi super tranquilo! As pessoas aqui são muito simpáticas e nós aproveitamos que temos lata para ficar nos melhores spots!

Dia 5 | O primeiro banho quente 🙏🏻

Depois de termos acordado num outro quintal, arrumamos tendas, tomamos o pequeno-almoço e chegou o autocarro para nos levar de volta ao campo. Já em campo, voltamos a montar tendas, almoçamos e tivemos direito ao nosso primeiro banho quente nuns balneários perto do campo.

Durante o resto da tarde não fizemos literalmente nada… Frustados com isso, assim como outros grupos, o grupo ficou receptivo ao desafio que lhes lancei no dia anterior e aproveitamos para estreitar laços, nomeadamente com um grupo de holandeses e noruegueses com os quais nos demos muito bem.

Jantamos por volta das 17h30 e estivemos só a deixar passar o tempo até às 20h30 enquanto esperávamos pela cerimónia de encerramento que foi mais um mini-fogo de conselho.

Dia 6 | Rumo a Stavanger

No último dia, a alvorada fez-se bem cedo às 5h45 para termos tempo de tomar o pequeno-almoço, desmontar o campo até às 9h e seguirmos num autocarro rumo a Stavanger.

Apesar das contrariedades do caminho, conseguimos valorizar bastante todos os momentos destes dias, seja pelas pessoas e os convívios ou as paisagens que nos ajudaram a encarar alguns acontecimentos menos bons com outra energia. Vou deixar aqui algumas imagens que retrataram muito bem o que vivemos na região de Gjovik.

Porquê uma história de resiliência?

Estes dias não foram incríveis, existiram muitos momentos mortos, situações que não conseguimos controlar e uma gestão do acampamento que foge totalmente ao nosso controlo.

No entanto, nós, portugueses, temos uma forma incrível de dar a volta às situações e pôr o nosso cunho pessoal onde quer que vamos. Como fui dizendo ao longo destes dias, as actividades são aquilo que queremos fazer delas e, felizmente, encaramos todos os desafios com a mentalidade certa, sabendo que fizemos e demos sempre o melhor de nós. Tudo ficou mais facilitado para contagiarmos outros escuteiros a seguir o mesmo rumo. Nesse sentido, acredito que conseguimos ter um impacto bastante positivo para criar um ambiente incrível à nossa volta.

Quanto à minha presença nesta actividade, voltei a sentir-me um jovem escuteiro mas a ideia não era essa… Não é normal em certos grupos a nível europeu, a presença de outros chefes nas actividades mas o objectivo era chegar a campo e ajudar enquanto staff. Como isso não aconteceu, refugiei-me no grupo onde estava e, enquanto responsável, tentei proporcionar-lhes a melhor experiência possível. Com muita paciência e muito café para consegui-los acompanhar com a moral em alta!

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Autor do projecto Num Postal, arquitecto de profissão, fotógrafo nas horas vagas e apaixonado por viagens. Criei o blog para que não me escape nada das minhas aventuras pelo mundo, para partilhar com os outros e para eu reviver cada uma destas experiências! Depois de viver uma temporada no Brasil, percebi que há todo um universo lá fora para descobrir e desde então nunca mais parei de ir à procura de lugares desconhecidos.

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