ROTA VICENTINA,
O TRILHO DOS PESCADORES

Uma pequena caminhada entre Sines e o Cabo de São Vicente, a melhor forma de descobrir algumas das melhores praias do país e uma rotina que se repetia todos os dias

PUBLICADO A 30 DE SETEMBRO DE 2020 | VIAGEM DE 28 DE AGOSTO A 4 DE SETEMBRO DE 2020

Férias a chegar, limitações nas viagens por causa da Covid-19 e por isso resta-me ficar em Portugal. Há muito tempo que tinha na gaveta este roteiro com o Trilho dos Pescadores da Rota Vicentina e então achei que seria o ano ideial para fazer isto. Além de estar completamente isolado de tudo, ainda tinha a oportunidade de conhecer os encantos do meu país!

Para este roteiro baseei-me na proposta do site da Rota Vicentina que já tem uma sugestão de etapas entre as várias vilas da região. Não é necessário cumprir tudo à regra mas é sempre uma grande ajuda para nos orientarmos. No meu caso, houve momentos em que senti que tinha capacidade para fazer duas etapas no mesmo dia e assim o fiz.

Ao longo da Rota Vicentina, existem muitos caminhos que variam entre: os Percursos Circulares, são caminhos com o início e fim no mesmo local; o Caminho Histórico, que como o nome indica é um percurso com muitos anos de história em meio rural; e o Trilho dos Pescadores, um percurso no qual podemos apreciar de perto a nossa admirável zona costeira.

8ª Etapa do Trilho dos Pescadores, da Carrapateira ao Cabo de São Vicente_Num Postal

Logística de cada dia

Todos os dias tentava ter a mesma rotina. Geralmente, é aconselhável fazer os percursos entre os meses de Setembro e Junho e isso eu cumpri quase à risca (e digo quase porque comecei a caminhar no final de Agosto). Para fugir ao calor, acordava cedo e muitas vezes saía do meu alojamento antes do sol nascer. Tomava o pequeno-almoço, metia a mochila às costas e fazia-me ao caminho com o objectivo de alcançar o meu destino de cada dia por volta da hora de almoço.

Assim que me instalava no lugar onde ia dormir, e já de barriga cheia, tratava de alguma logística (como a do pequeno-almoço para o dia seguinte), lavava roupa e aproveitava para descansar um pouco. Mas não ficava relaxado muito tempo porque uma parte importante desta caminhada também tinha o propósito de conhecer os lugares onde passava e descontrair nas melhores praias.

As noites eram mais relaxadas. Em tempos de Covid-19 também não me podia meter em grandes aventuras e por outro lado voltava a madrugar no dia seguinte. Em muitos lugares encontrei pessoas que estavam a fazer o mesmo percurso que eu e em muitas vilas voltei a reunir-me com essas mesmas pessoas. Esses reencontros com a partilha de experiências sobre os percursos da Costa Vicentina eram muito reconfortantes e ajudavam as noites a ser menos monótonas.

1ª Etapa do Trilho dos Pescadores, de Sines a Porto Covo_Num Postal

Trilho dos Pescadores

De todas as opções na Rota Vicentina, optei por fazer o Trilho dos Pescadores. Este percurso segue a costa do Parque Nacional do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, quase sempre junto ao mar. É um dos mais exigentes fisicamente pela areia que encontramos no percurso e muitas vezes não encontramos uma sombra para nos protegermos do sol e do calor que se faz sentir.

Porque já fiz duas etapas do Caminho Histórico, acho que posso dizer que o constante contacto com o mar e todos aqueles ecossistemas dunares, tornam este percurso mais interessante. São um total de 226,5 km que ligam a Praia de São Torpes até Lagos mas eu só segui até ao Cabo de São Vicente como a maior parte dos caminhantes costuma fazer. Este percurso está dividido em 13 etapas mas eu fiz em 8 o que devia ter feito em 10 etapas.

1ª etapa – Sines a Porto Covo (17 km / ~ 4h00)

Na verdade esta etapa começa na Praia de São Torpes e como tinha de ir lá dar de alguma forma, comecei logo a caminhada em Sines. Esta etapa tem apenas 10 km mas a caminhada desde Sines acrescentou-lhe mais uns 7 km.

A primeira parte até à praia de São Torpes é muito chata, com um percurso sempre por estrada junto aos estaleiros e às áreas industriais. Depois da praia começam os primeiros quilómetros em areia e ainda tive a sorte de apanhar um nevoeiro na minha chegada a Porto Covo. O resto do dia foi passado a descobrir a vila e terminou com um dos melhores fins de tarde desta jornada.

1ª Etapa do Trilho dos Pescadores, de Sines a Porto Covo_Num Postal

2ª etapa – Porto Covo a Vila Nova de Milfontes (20 km / ~ 5h30)

Esta foi de longe a etapa mais difícil. O percurso é todo feito em areia, o sol estava muito quente e não existe nenhuma estrutura para podermos abastecer-nos de mantimentos. Assim sendo, aconselho desde já que vão com água necessária e alguns snacks para o caminho.

De qualquer forma, foi um dia com algum vento que ajudou a suportar o calor. Mesmo com todo o cansaço acumulado, foi impossível ficar indiferente às vistas incríveis no caminho e aquelas falésias que se impunham na paisagem. A chegada a Vila Nova de Milfontes foi mais de alívio do que satisfação mas depois destas etapa já me sentia preparado para tudo o que viesse a acontecer neste percurso.

2ª Etapa do Trilho dos Pescadores, de Porto Covo a Vila Nova de Milfontes_Num Postal

3ª etapa – Vila Nova de Milfontes a Almograve (11,5 km / ~ 3h00)

O caminho até Almograve chegou em muito boa hora… No início deste dia estava com algum receio por tudo o que tinha passado no dia anterior mas ao mesmo tempo estava feliz porque ia ser o percurso mais pequeno que ia fazer no Trilho dos Pescadores.

O percurso começou com uma primeira boleia de barco para ir de Vila Nova de Milfontes até à Praia das Furnas. Com este atalho poupei 4 km e segui por um percurso muito compacto com alguma sombra e a areia só apareceu nos últimos quilómetros. Cheguei tão cedo ao meu destino que deu para fazer tudo o que queria. O dia só terminou com um maravilhoso sunset na Praia de Almograve.

3ª Etapa do Trilho dos Pescadores, de Vila Nova de Milfontes a Almograve_Num Postal

4ª etapa – Almograve à Zambujeira do Mar (22 km / ~ 5h30)

Foi uma das etapas mais fáceis até certo ponto. Em primeiro lugar porque o percurso é quase todo a direito e é facilmente reconfortado com vistas indescritíveis. Em segundo lugar porque dava cada vez mais valor ao facto de não haver areia no caminho e aqui é praticamente inexistente.

Por outro lado, havia uma coisa que me incomodava que eram as rectas sem fim. Alguns troços do caminho são assim mas de vez em quando somos recompensados com algumas das vistas mais bonitas de todo o percurso. Com tudo isto, a chegada à Zambujeira do Mar foi um pouco sofrida porque estava muito calor e até então era o dia que tinha mais quilómetros nas pernas.

Quando cheguei à vila tinha duas das praias mais bonitas para passar o resto do dia. Decidi ficar na Praia dos Alteirinhos onde tive a melhor tarde desta viagem que só terminou com um sunset ainda mais espectacular.

4ª Etapa do Trilho dos Pescadores, de Almograve à Zambujeira do Mar_Num Postal

5ª etapa – Zambujeira do Mar a Odeceixe (18,5 km / ~ 5h45)

É claramente a etapa que mais gostei! Também é dos troços mais desafiantes pelos inúmeros declives mas compensa por cada uma das paisagens que encontramos neste caminho.

Nestes 18,5 km passamos por algumas das praias mais interessantes, a começar na Praia dos Alteirinhos, Praia do Carvalhal, Praia dos Machados, Praia da Amália e a acabar na Praia de Odeceixe. É muita beleza junta em tão poucos quilómetros e por isso também demorei um pouco mais a fazer este trilho para ir apreciando cada momento proporcionado pelo caminho.

A chegada a Odeceixe é que é uma das partes mais chatas de todo o percurso porque é todo feito por estrada. De qualquer forma, a vila é incrível, foi um dos lugares que mais explorei (e adorei!) e marca a transição do Alentejo para o Algarve.

5ª Etapa do Trilho dos Pescadores, da Zambujeira do Mar a Odeceixe_Num Postal

6ª etapa – Odeceixe à Arrifana (20 km / ~ 5h00 + 12km / ~ 2h45)

Odeceixe marca o cruzamento do Trilho dos Pescadores com o Caminho Histórico e para encurtar caminho optei por esta segunda via. O percurso não é tão interessante mas tem o seu encanto especial. Ao contrário dos outros dias junto ao mar, consegui privilegiar muito mais o silêncio e o contacto com a natureza em toda a sua plenitude.

Como o objectivo era chegar até à Arrifana, fiz duas etapas no mesmo dia. Em primeiro lugar saí de Odeceixe até Aljezur onde parei para almoçar. Depois de recarregar baterias para continuar, não demorei muito a pegar na mochila e a seguir caminho até à Arrifana. No total foram 32 km que me deram as primeiras bolhas nos pés (e as únicas de todo o percurso).

Ao chegar a esta estância balnear, fui até à praia mas desisti logo quando vi aquela descida bem íngreme para lá chegar. Fiquei pelo pôr-do-sol que mais uma vez não desiludiu.

6ª Etapa no Caminho Histórico, de Odeceixe à Arrifana_Num Postal

7ª etapa – Arrifana à Carrapateira (20,5 km / ~ 5h00)

Era altura de voltar ao Trilho dos Pescadores e já sentia saudades da vista do mar enquanto caminhava (e só tinha passado um dia desde a última vez que isso tinha acontecido). O percurso é muito tranquilo (tirando uma subida ou outra) e só não foi mais fácil porque já tinha mais de 100 km nas pernas nos últimos sete dias.

Metade do percurso é feito no Caminho Histórico e a outra metade no Trilho dos Pescadores. O melhor de tudo foi chegar à Carrapateira pela praia e até deu para molhar os pés naquela água do mar antes de terminar o percurso. Foi mesmo relaxante.

Nesta pequena vila fui tratado como um rei e encontrei o conforto que estava mesmo a precisar antes de chegar ao destino final. A Praia da Bordeira foi o local de eleição para descomprimir da caminhada.

7ª Etapa do Trilho dos Pescadores, da Arrifana à Carrapateira_Num Postal

8ª etapa – Carrapateira ao Cabo de São Vicente (16 km / ~ 5h00 + 14km / ~ 3h30)

Para o último dia decidi cometer mais uma loucura e juntei duas etapas. Foram 30 km que me levaram até ao Cabo de São Vicente para ver o pôr-do-sol e ter um final de caminhada em grande.

A primeira parte do percurso levou-me até à Vila do Bispo num percurso fácil com a maior subida de todo o trilho. Foi das etapas que mais gostei e que me deu a conhecer a Praia do Amado… Como as praias em Vila do Bispo ainda são longe da vila, achei por bem continuar o percurso até ao Farol de São Vicente. Como o objectivo era ver o pôr-do-sol, fiz esta parte do percurso com muita calma e 30 km depois cheguei ao fim com uma grande satisfação e um sentimento de dever cumprido!

8ª Etapa do Trilho dos Pescadores, da Carrapateira ao Cabo de São Vicente_Num Postal

As etapas que faltaram…

Do Cabo de São Vicente ainda podia ter continuado o caminho até Sagres, onde termina oficialmente esta etapa desde Vila do Bispo. O Trilho dos Pescadores ainda podia ter continuado até Lagos por mais três etapas mas como o tempo não dá para tudo, não foi possível alcançar este feito. Seriam mais 42,5km que iriam completar os 226,5 km que faltavam até Lagos.

Dicas para o caminho

Durante o caminho fui pensando em algumas decisões boas e más que me deixaram a pensar no que podia ter sido diferente neste processo… Em jeito de avaliação, gostava de dar algumas dicas que queria ter recebido antes de começar esta aventura:
  • Ficar em alojamentos locais em vez de acampar. Ainda pensei em levar uma tenda mas não se pode acampar em todo o lado e ficando num hostel acabamos por ter mais algum conforto, os preços por vezes não diferem muito e ainda levamos menos peso às costas.
  • Leva o menos possível na mochila. Eu nem levei muita coisa mas fiquei a pensar que podia ter levado apenas 1 par de calções em vez de 2 e 2/3 t-shirts em vez de 5. Foi mais ou menos o esquema que usei há uns anos quando fiz os Caminhos de Santiago. Levava comigo o menos possível, lavava a roupa todos os dias e durante o caminho não sentia peso nenhum às costas. Também compensa levar uma mochila que não seja muito grande porque quanto maior for mais necessidade temos de a encher com material que podemos nem usar.
  • Faz o teu próprio pequeno-almoço. Quando marquei os hostels e vi a opção “pequeno-almoço”, accionei-a de imediato. Ajuda muito não ter de pensar nesta logística mas se tal como eu pensares em sair dos alojamentos muito cedo, mais vale perder uns minutos em comprar algo para comer no dia seguinte de manhã. O problema dos pequenos-almoços nos alojamentos é que são servidos a horas em que já queríamos estar a caminhar há muito tempo…
  • Duas etapas no mesmo dia pode não funcionar. Eu até tinha alguma preparação física e aguentei bem quando isto aconteceu. De qualquer forma, o cansaço é enorme e depois acabas por não aproveitar os lugares se for esta a tua vontade.
  • Leva sempre um lanche na mochila e água. Durante o caminho pode fazer muito calor e muitas vezes o cansaço psicológico é mais complicado de gerir que as dores musculares. Para esses momentos convém estar preparado com alguns snacks e água porque existem etapas onde não encontras nada nem ninguém para ajudar.
5ª Etapa do Trilho dos Pescadores, da Zambujeira do Mar a Odeceixe_Num Postal

No total foram oito dias de caminhada, 171 km nas pernas e podiam ter sido muito mais! É uma experiência que dificilmente irei esquecer e que aconselho toda a gente a fazer. Sempre fui grande defensor que é a caminhar que conhecemos realmente algum lugar e na Costa Vicentina levei isso demasiado à letra. E ainda bem que o fiz! Levei o empurrão que precisava para me meter numa aventura destas e felizmente não me arrependo de nada. É incrível como um país como Portugal é tão pequeno e tem tanta diversidade, nunca me canso de dizer isto. A Costa Vicentina só vem provar que devemos estar mais atentos e darmos o devido valor que o nosso país e as suas gentes merecem!

Rota Vicentina, o Trilho dos Pescadores_Num Postal

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Autor do projecto Num Postal, arquitecto de profissão, fotógrafo nas horas vagas e apaixonado por viagens. Criei o blog para que não me escape nada das minhas aventuras pelo mundo, para partilhar com os outros e para eu reviver cada uma destas experiências! Depois de viver uma temporada no Brasil, percebi que há todo um universo lá fora para descobrir e desde então nunca mais parei de ir à procura de lugares desconhecidos.

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